NA DANÇA DOS VERSOS, A ESCRITA POÉTICA COREOGRAFA

UM HOMEM PLURAL

                                                           

Laura Beatriz Fonseca de ALMEIDA - UNESP/Araraquara

 

Dei um salão aos meus pensamentos

Tudo gira,

Tudo vira,

Tudo salta,

Samba,

Valsa,

Canta,

Ri!

Quem foi que disse que eu não vivo satisfeito?

EU DANÇO! (Mário de Andrade)

 

            A poesia de Mário de Andrade reflete a inquietação do poeta moderno que faz de sua arte um exercício permanente de pesquisa. Dialogando, de modo vivo, com as contradições de seu tempo, o sujeito lírico marioandradino desenha, em versos, contrastes de um Brasil, que se moderniza, entre as décadas de vinte e quarenta, desconhecendo a multiplicidade e a riqueza cultural de sua paisagem, e conflitos de um "eu" que vivencia o embate das máscaras como força motriz de seu processo de criação.

            As idéias da vanguarda européia iluminam o poeta Mário de Andrade que se deixa guiar, no exercício da escrita poética, por impulsões líricas, pela ordem imprevista das comoções e associações de imagens, idealizando, de modo livre e musical, o ritmo pulsante de uma nova era. O impulso poético clama dentro do poeta como turba enfurecida e Mário reivindica, em seu Prefácio Interessantíssimo, liberdade de expressão: "quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita".

            Numa entrega visceral à paisagem da cidade, o poeta passeia pelas ruas da Paulicéia, colhendo imagens arlequinais na rotina desvairada da cidade de São Paulo. Como um tupi tangendo o alaúde, Mário entrega-se ao sentimento pau-brasil e, em verso livre, escreve a crônica viva da cidade. Nos poemas do primeiro livro modernista, Paulicéia Desvairada (1922),a escrita experimental do poeta extravasa, em versos harmônicos e em linguagem coloquial, uma inquietante procura:

 

Sentimentos em mim do asperamente

dos homens das primeiras eras...

As primaveras de sarcasmo

intermitentemente no meu coração arlequinal...

 

 

            A voz desbravadora que sai às ruas e se enlaça aos ritmos e movimentos dançantes da cidade, clamando, à sua maneira, a emoção desvairada da Paulicéia, adere de corpo e alma à paisagem das ruas de São Paulo. Deslumbrado com as revelações de sua cidade, o poeta faz transbordar em seus versos a euforia de um "eu" que se reconhece, de modo visceral, na ambiência urbana da cidade. O olhar vazado de emoção que contamina a escrita poética do primeiro livro de poemas modernistas de Mário não deixa, entretanto, de estar atento à mistura fraterna das raças e culturas dos moradores da cidade: "a grande boca de mil dentes". Ao escrever os versos de Paulicéia não para a leitura de olhos mudos, mas, ao contrário, para serem cantados, urrados e chorados, o poeta revela o exercício da crítica como a medida justa de sua afinação lírica.

            A experiência da primeira emoção desperta o desejo da escuta e o poeta faz anotações líricas das vozes estridentes da cidade. Em Losango Cáqui (1926), Mário não se acanha ao tirar a máscara e aventurar-se por entre a multidão anônima dos passantes da rua. Entre o ir e vir dos passantes, o poeta expõe-se à cidade que se transforma, à República que se revê, às revoluções futuras acenadas na paisagem e às inquietações decorrentes de um ardor patriótico.

            Em tom de brincadeiras líricas, o poeta escreve o diário das emoções de um coração que estrala "na trajetória rápida do bonde...". Embalado pelo andar dançante e muito pouco marcial de seu povo, Mário veste a farda losango cáqui e marcha sincopado com cabo Machado. Ao cumprir o destino de um homem feliz, o destino de um poeta que colhe momentos de vida embalado pela melodia de rondós e toadas, Mário traz à baila, nos poemas deste livro, a língua brasileira, emblema de um povo em busca de sua identidade.

 

Cabo Machado é cor de jambo

Pequenino que nem todo brasileiro que se preza

 (...)

Cabo Machado é dançarino, sincopado,

Marcha vem-cá-mulata.

 (...)

Cabo Machado é doce que nem mel

E polido que nem manga-rosa

(...)

(...) cabo Machado anda maxixe

Cabo Machado ... bandeira nacional!

 

            Na Advertência do livro de 1926, Mário classifica sua poesia como anotações líricas, brincadeiras, alucinações, consciente dos riscos que correm seus versos de serem lidos pela crítica como poesia-de-circunstância. No entanto, as anotações líricas, com rara intenção de fazer versos, como reconhece o poeta, reafirma a ousadia e a experimentação do artista que traz a público sua palavra poética como pergunta e não como solução. Ao chamar atenção para a sua obra como uma curiosidade em via de satisfação, Mário blefa no jogo da mascarada, reafirmando a palavra poética como um projeto maior de sua existência.

 

– "Olhe o Mário de Andrade!"

Se enganou, moça.

            A melodia plural que se harmoniza em meio à multiplicidade de ritmos que o poeta escuta na cidade convida-o a ampliar os horizontes de sua paisagem. Por terras do Brasil, arrisca-se o poeta para além da Paulicéia a fim de experimentar, na mistura saborosa da linguagem cabocla, a tonalidade mesclada da língua brasileira que a cada região ganha tonalidade expressiva.

            No terceiro livro de poemas – Clã do Jabuti, Mário canta o Brasil – terra "de cheiros e calores amontoados", saboreando a textura impura de uma cultura plural. Recolhendo a diversidade das manifestações da arte popular de diferentes regiões do país, o poeta amplia suas referências e enriquece a melodia de seus versos. Ao cantar o Brasil sem os limites de uma geografia, dedilhando-o em sua riqueza rítmica, Mário amadurece o conceito de pátria e sedimenta o compromisso de sua arte com a realidade brasileira. Entre o olhar estético e o social, o poeta estreita o diálogo em busca do equilíbrio entre concepções de nacionalidade e nacionalismo. Nos versos desse livro, publicado em 1927, revelam-se desejos:

 

Brasil...Mastigado na gostosura quente de amendoim...

Falado numa língua curumim

De palavras incertas num remeleixo melado melancólico...

(...)

Brasil amado não porque seja minha pátria,

Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...

Brasil que eu amo porque é ritmo do meu braço venturoso,

(...)

Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada

 

            A linguagem, a literatura, a música, a dança, o folclore e as crendices populares são a fonte de pesquisa do poeta aplicado que se entrega ao sabor do ritmo de uma voz coletiva para cantar a melodia plural de sua cultura. O material coletado de nossas tradições ilumina o poeta em sua avaliação do homem social, pois, como fonte de conhecimento, "o folclore é muito mais humano que a restrita idéia moral do Bem e por isso guarda exemplos de tudo quanto, grandezas como misérias, move a nossa fragílima humanidade", como nos ensina Mário em um de seus ensaios do livro Empalhador de Passarinho (p.164).

             Ao sabor de toadas, modas, cocos, sambinhas, rondós e acalantos, a voz do Clã coreografa a riqueza de melodias que a identificam. Em meio à mascarada do corso da festa de Carnaval, o poeta entrega-se a sensações que desconhecia e surpreende-se ao gozar da liberdade da multidão compacta que se aglomera, aglutina, e mastiga desejos e delírios. Finda a festa, o poeta sente-se mais próximo de si mesmo e mais puro. Com a força de quem desbrava a Terra onde nasceu, cantando e dançando a diversidade do povo, da raça, da cultura, da língua de seu país, o poeta irmana sua voz à voz dos homens do Brasil ao cantar os versos de sua poesia.

 

Não vê que me lembrei lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim,

(...)

Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos olhos

Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,

Faz pouco se deitou, está dormindo

 

Esse homem é brasileiro que nem eu...

                                             

            Remate de Males, publicado em 1930, quarto livro do poeta, fecha o ciclo de uma década em que Mário constrói um projeto de escrita no qual a busca do autoconhecimento de si mesmo, de sua voz poética, de sua língua, de seu povo promove o sentido maior de sua poesia. Preparado ao longo dos anos 20, este livro traz, no nome, a referência a um lugarejo da Amazônia, um fim de mundo e ponto de partida do arremate dos males, a confirmar a dimensão da escrita poética que proclama a singularidade de um povo heterogêneo e sua complexidade cultural como a voz plural que a unifica.

            Eu sou trezentos... anuncia o poeta nos versos da poesia que abre o volume de 1930. Como um viajante-pesquisador, uma voz no mundo que retorna à casa, depois de um longo período de andanças, o poeta depura experiências com a certeza de que um dia sua "alma (lhe) servirá de abrigo". Nesse livro-chave da obra marioandradina, como avalia Gilda de Mello e Souza, o estado afetivo do sujeito lírico traduz o compromisso de sua voz com as vozes que ecoam na paisagem de seu país e que lhe permitem descobrir a furto a própria identidade.

 

Abraço no meu leito as milhores palavras,

e os suspiros que dou são violinos alheios;

eu piso a terra como quem descobre a furto

nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

 

            Mário organiza esse volume de poesia em quatro conjuntos de poemas, denominados: Tempo da Maria (1926), Poemas da Negra (1929), Marco de Viração (1924), Poemas da Amiga (1920-1930), antecedidos pelo poema curto de abertura, "Eu sou trezentos" (1929) e por um poema longo "Danças" (1924).

            O primeiro poema, ponto final do arremate, (Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta) traz a voz meditativa do poeta a enlaçar, com concisão e na medida exata, a palavra poética, delineando a máscara da diversidade como escolha consciente de quem atinge a maturidade de sua poesia e persegue o encontro de si mesmo.

            O segundo poema, "no melhor estilo de combate da vanguarda, fragmentário e destruidor", como esclarece João Luiz Lafetá, escancara o avesso da máscara, coreografando o ziguezaguear, de modo ousado e livre, do "eu" em movimento constante por entre diferentes ritmos e tons de um país que se moderniza em meio às contradições de uma época.

 

                                                A Bolsa revira.

                                                Reviram-se as bolsas.

                              As letras entram. 

                       Os ouros saem...

                                                                Corrida

                                                      tombos

                                                vitórias

                                                delírios

                                           banquetes

                                           orquestras....

                                            Os homens dançam...

                Danço também.

 

            A cada conjunto de poemas, arrematado por um título, Mário alinhava um pouco do movimento de escrita e de escuta dos livros anteriores, transformando ritmos e tonalidades, que colhera em suas andanças, em força dramática da melodia dedilhada por um "eu" multiplicado. Com a máscara da diversidade, o "eu" dança, como um homem feliz, a música que está a compor: a do redescobrimento de si mesmo.

            Em "Tempo da Maria", o poeta ponteia a viola afinando poemas de um lirismo mais profundo. Centrado em sua existência de homem plural, o sujeito lírico expõe-se a emoções que o seduzem e o desafiam. A paixão pelo outro, que ele desconhece e que é parte do seu eu, e o desejo de revelações guiam-no na busca do autoconhecimento e, pelas ruas da Paulicéia, o poeta caminha com olhos voltados para sua interioridade.

                                           

(...)

Me esparramo pela cidade,

E as coisas, nessa intimidade,

São um dilúvio de olhos, olhos

Meus, assuntados sobre mim.

 

            Na entrega amorosa de si mesmo ao outro, à cidade que o acolhe, aos homens de seu tempo e à natureza que o seduz, o poeta fecunda em seus versos uma subjetividade que almeja desvelar. Em "Poemas da negra", o encontro dos corpos desejantes faz o "eu" perder-se no outro, como impulso maior da entrega de si mesmo.

 

(...)

Eu me inundo de vossas riquezas!

Não sou mais eu!

 

Que indiferença enorme

 

            Em "Poemas da amiga", as experiências vividas, compartilhadas e confidenciadas dão sabor especial à entrega do "eu" ao outro, à amiga e companheira de toda hora. Na conversa entre amigos, os desejos, os medos, os sonhos e as revelações do coração vão escrevendo a poesia com sabor familiar.

 

Minha cabeça pousa nos seus joelhos,

Vem o entre-sono, e é milagroso!

A vida se conserva em mim doada pelos seus joelhos,

E sou duma inimaginável liberdade

 

            A mobilidade dançante da voz plural arrisca passos ao sabor do ritmo da época. No exercício da reflexão e da crítica, no corpo-a-corpo com a linguagem, o poeta repassa a dimensão social do Brasil na década de trinta por meio da busca cabotina da verdade mais profunda do ser em meio às máscaras, superando a visão eufórica da voz arlequinal de seus primeiros poemas modernistas.

            "Marco de viração" é o conjunto de poemas mais denso e pede muita habilidade ao poeta no arremate dos males. O grito imperioso de brancura, aspiração maior do poeta, dá a dimensão da voz que deseja despojar-se de si mesmo a fim de igualar-se aos homens iguais.

 

(...)

Dei tudo o que era meu, me gastei no meu ser,

Fiquei apenas com o que tem de toda a gente em mim...

Doçura da pobreza assim...

 

Nem me sinto mais só, dissolvido nos homens iguais!

(...)

E me sinto maior, igualando-me aos homens iguais!...  

 

            Na brancura de seu ser, na entrega plena do "eu" ao desconhecido, o poeta escancara sua alma aos ritmos, às cores e aos cheiros de sua terra e de seu povo. Crivado de raças, igualado aos homens iguais, ele experimenta a entrega maior de si mesmo: a exposição do "eu" aos impasses e conflitos do homem social. "No espanto ignaro com que a gente se chega pra morte", a voz do poeta veste a máscara "desmascarada" a fim de se expor com a fragilidade do homem diante das misérias do mundo.

 

Pela noite de barulhos espaçados,

Neste silêncio que me livra do momento

E acentua a fraqueza de meu ser fatigadíssimo,

Eu me aproximo de mim mesmo

No espanto ignaro com que a gente se chega pra morte.

(...)

Tudo me choca, me fere, uma angustia me leva,

Estou vivendo idéias que por si já são destinos não escolho mais minhas visões

 

            As faces que o poeta revela em 1930 – o estar no mundo e o reconhecer-se no outro – dão a seus versos uma tonalidade de voz política que se explicita nos livros de poemas subseqüentes: Carro da Miséria, Lira Paulistana e no poema Café. (Lafetá, p.31). Nos poema destes livros, Mário proclama a resistência angustiada do poeta e realiza o amargo balanço de seus atos modernistas.

            No arremate dos males poéticos, Mário reescreve as várias vozes do sujeito lírico, delineadas nos diferentes livros do poeta ao longo da década de 20. Nas laçadas das vozes do poeta cotidiano, do poeta folclórico-pesquisador, do poeta de si mesmo, Mário amadurece o tom de sua escritura em 30. A voz do eu mais o mundo, como um outro "eu" a revelar-se nos laços do remate do poeta criador de poética, ponteia outras entregas que ficarão guardadas por uma década até a publicação do livro Poesias em 1941.

 

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ANDRADE, M. Poesias completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993.

_____. O empalhador de passarinho. São Paulo: Martins; Brasília: INL, 1972.

CANDIDO, A. Louvação da tarde. In: _____. O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.

LAFETÁ, J.L. Figuração da intimidade: imagens da poesia de Mário de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

ROSENFELD, A Mário de Andrade. In: ____. Letras e leituras. São Paulo: Perspectiva: EDUSP, 1994.